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Archive for Fevereiro, 2009

O estouro de uma nova bolha americana até o final de 2009? - Continuação

Caros amigos e comentaristas dos artigos do Canal de Alta,

Não tinha a intenção de continuar a escrever especificamente sobre este tema, entretanto, diante das críticas recebidas em alguns comentários sobre a primeira parte do O estouro de uma nova bolha americana até o final de 2009?, considerei pertinente tentar me aprofundar um pouco mais sobre alguns pontos que não foram muito aprofundados na primeira parte. Sendo assim, tentarei expor os fatos que basearam a minha opinião sobre o próximo capítulo desta crise econômica mundial.

O Brasil e suas principais empresas são basicamente exportadores de commodities. Seja a Petrobras com o petróleo e seus derivados, seja a Vale com o minério de ferro e afins, seja as empresas siderúrgicas com aço … Não que nossa economia seja apenas baseada na exportação destas commodities, ou que a nossa Bolsa de Valores tenha apenas empresas exportadoras de commodities compondo o seu índice. Cada vez mais temos empresas fortes baseadas no setor secundário e terciário desempenhando um papel de grande relevância para a economia do país e para a estabilidade do Índice Ibovespa. Entretanto, não podemos nos iludir que a grande força motriz da economia brasileira não seja as nossas commodities agrícolas, energéticas, minerais, pecuárias …Somos o que somos. Não estou inventando nada.

Não é novidade para ninguem que EUA e China são mercados consumidores vorazes das commodities brasileiras. Conforme abordado no último artigo, um desequilíbrio na relação simbiótica (chinamérica) entre estes dois países poderá gerar o estouro desta nova bolha financeira. Não é novidade também que, mesmo que esta nova tragédia não ocorra, a voracidade com que estes países vinham consumindo os nossos produtos não se repetirá este ano. Vamos a alguns fatos que podem convencê-los de que eu não me baseio apenas em achismo:

* As exportações do Brasil para a China cresceram cinco vezes nos últimos seis anos. Em 2008, o trio petróleo-minério de ferro-soja representou 77% do total de produtos exportados do Brasil para a China. A previsão para 2009 é que o volume financeiro total gerado por estas exportações seja 12% menor do que no último ano (redução de US$12.7 bilhões para US$11.2 bilhões). Apenas em relação a Petrobras, 24.1% do total exportado vai direto para a China, enquanto que 5.5% é comprado pela Europa e 5.2% pelos outros países da América do Sul. De maneira alguma que afirmar que as exportações da Petrobras dependem da China, mas que este país é um importantíssimo mercado consumidor acho que ninguem pode negar. É natural que um desaquecimento da economia deste país gere uma diminuição do apetitie do mesmo em relação ao nosso petróleo e demais commodities.

* A China está tentando costurar um free trade agreement com os países do Golfo Pérsico. Os negócios fechados entre a China e o bloco do petróleo cresceram 35% de 2002 até 2007, o que prova o grande interesse dos chineses em concretizar este acordo: acesso livre e fácil ao petróleo. Tudo em troca de bens a preços ultra-competitivos. Palms, laptops e CDs piratas da Xuxa pelo “Ouro Negro”. Não custa lembrar que vem ganhando força o bloco econômico formado pela China e os demais países asiáticos. Após este período de crise não vai ser difícil vislumbrar a China como novo motor do mundo. Não vou nem comentar sobre o que seria mais prático para a China entre manter este consumo anual de quase um quarto do total exportado pela Petrobras ou buscar Petróleo logo ali do lado praticamente à base de escambo.

* A Aluminium Corporation of China (Chinalco) irá investir US$ 19,5 bilhões na mineradora anglo-australiana Rio Tinto. Do montante total, US$ 12,3 bilhões serão destinados a joint-ventures na área de minério de ferro, cobre e alumínio. O acerto contempla a emissão de bônus conversíveis em duas tranches, com preço de conversão de US$ 45 e US$ 60, perfazendo um total de US$ 7,2 bilhões. Se convertidos, a participação da Chinalco na Rio Tinto irá a 18%. No ano passado, a Chinalco se juntou à norte-americana Alcoa para comprar 9% da Rio Tinto por US$ 14 bilhões. A Rio Tinto foi forçada a estudar esse conjunto de opções em meio à severa desaceleração no setor de mineração e metalurgia e depois do fracasso da tentativa de compra feita pela BHP Billiton em novembro, no valor de US$ 70 bilhões. Apesar de ser importante para o fortalecimento do setor, não é um dado positivo para a Vale (Brasil) e para a manutenção dos preços elevados do minério de ferro no mercado. É o caso do comprador adquirindo os meios de produção. O poder de barganha chinês aumenta consideravelmente. O investimento ajudará a China a consolidar sua influência sobre um fornecedor importante de minério de ferro para as siderúrgicas do país. O vocês acham que vai acontecer com a cotação da Vale?

* Agora um dado sobre este descolamento do Índice Ibovespa em relação ao Índice Dow Jones. Os estrangeiros voltaram a operar de maneira regular sobre o mercado financeiro brasileiro desde o início de 2009. A sincronia dos atores vem sendo tão perfeita que desde meados de Janeiro de 2009, o Ibovespa já subiu 12%. Somente nos cinco primeiros pregões de Fevereiro, os estrangeiros já investiram R$1,2 bilhão em nossa bolsa. Não sei até quando vai durar, mas isso não está meio parecido com o que ocorreu no ano passado? O Mundo cai, mas o Brasil não se abala … Avante companheiros!

* Dando certo ou não estes pacotes de SOS desenvolvidos pelo governo americano, muito dinheiro vai ser gasto. Como comentamos no último artigo, os grandes financiadores desta gastança sem fim são os chineses, comprando os Títulos do Tesouro Americano (Treasures). Mesmo com a crise, os chineses ainda tem muito dinheiro para gastar, vide a disparada de empréstimos bancários registrada lá do outro lado do mundo. Apesar de ser um bom sinal para a crise, pois significa que alguem ainda está gastando dinheiro por aí, os chineses já mostram sinais de insatisfação com a desvalorização dos Treasures Americanos. Os chineses possuem cerca de US$700 bilhões enterrados nos títulos do Tesouro Americano. Com a emissão de mais títulos para financiar todos estes pacotes, os mesmos tendem a desvalorizar mais ainda. O Tesouro Americano pretende, nos próximos dois anos, emitir entre US$2.7 a US$4.2 trilhões em títulos. A desvalorização do USD em relação CNY também preocupa, já que com estas taxas baixas, vai ser difícil segurar a desvalorização da moeda americana em relação à chinesa. Assim, o pouco que estes títulos rendem aos chineses atualmente, renderá muito menos em termos de poder de compra. O ciclo está ou não está se fechando?

Esta nova bolha pode até não estourar, mas que éela já está inchando não há como negar. E mesmo assim, alguma vez o mundo inteiro sofreu e o Brasil ficou incólume? Por que isso iria acontecer logo agora?

Um grande abraço e até a próxima!

João Luis Benatto Torres
ADVFN BRASIL
www.advfn.com.br

O estouro de uma nova bolha americana até o final de 2009?

Tal qual escrevi em meu artigo sobre Estatísticas e Previsões relacionadas ao movimento das cotações das Bolsas de Valores durante os períodos de transição entre o fim e o início de ano, acompanhamos um relevante movimento de alta das cotações do Mercado Bovespa iniciado precisamente no dia 08 de Novembro de 2008 e que perdura até hoje (princípio de Fevereiro de 2009). As estatísticas demonstram que após um ano com forte movimento de baixa das cotações, os meses de Dezembro e Janeiro apresentam um forte movimento de alta. Este movimento de regulação dos preços durante o período de festas e férias no Brasil é tradicionalmente fomentado por bancos, fundações e fundos de investimento.

A diferença estatística apresentada durante o atual período baseia-se no início precoce deste movimento de alta iniciado no princípio de Novembro e a persistência do mesmo após o fim do mês de Janeiro. Um outro fato interessante refere-se ao descolamento apresentado pelo Índice Ibovespa em relação ao Índice Dow Jones observado durante o mês de Janeiro de 2009. Não que o movimento dos preços em Wall Street esteja em queda vertiginosa enquanto que as cotações registradas na BM&FBovespa estejam “subindo a ladeira”, mas que o movimento da Bolsa de Valores brasileira não está acompanhando a onda de pessimismo e o mal resultado das empresas no resto do mundo, realmente não está.

Antes que os ufanistas de plantão comecem a alardear o grito de independência demonstrado pelo mercado financeiro brasileiro, devemos lembrai-vos que durante o primeiro semestre do ano passado presenciamos um movimento de alta da bolsa brasileira muito mais acentuado e completamente independente do movimento registrado pelos índices americanos e europeus. Mesmo com o estouro da bolha imobiliária e das primeiras quebras de algumas potências bancárias, o Índice Ibovespa planou suavemente em “céu de brigadeiro”, abastecido pela manutenção dos preços das commodities, por “profundas” descobertas de petróleo na costa brasileira e pelo tão aguardado Investment Grade. Depois da bonança veio a tempestade - como todos vocês já sabem - com Circuit Breaks, queda vertiginosa no preço das commodities, alta do dólar e prejuízo, muito prejuízo para as empresas brasileiras, principalmente para aquelas que especularam seu capital no mercado futuro.

Este ano, as notícias ruins continuam: quebras e mais quebras de bancos ao redor do mundo, diariamente milhares de pessoas são demitidas das grandes empresas, bilhões e bilhões de dólares são despejados no mercado pelos governos tentando movimentar novamente a “roda da fortuna” … Mesmo assim, continua pairando no ar este sentimento constante de estagnação e depressão. Se no ano passado, cada notícia ruim nos afetava de forma aguda, este ano, as mesmas cronificaram, tornando-se parte de nosso dia-a-dia, afetando a nossa confiança de que o pior já passou.

O pior já passou? Segundo previsão de analistas da RBC Capital Markets, durante os próximos três a cinco anos, mais de 1000 (mil) bancos norte-americanos irão à falência. Não sei se existe mil bancos no Brasil, ou mesmo na América do Sul … Como podemos afirmar que o pior já passou?

Segundo o historiador econômico americano Niall Ferguson, autor do Best Seller The Ascent of Money - A Financial History of the World e professor de Harvard e Oxford, em entrevista à Revista Exame no início deste mês de Fevereiro, até o final de 2009 iremos presenciar o estouro da próxima bolha americana. A causa desta nova bolha é o desequilíbrio no mercado de títulos do país gerado pela dinâmica da relação entre China e Estados Unidos da América (EUA).

Segundo o professor Niall Ferguson, os EUA vêm financiando os seus pacotes econômicos bilionários e os seus déficits por meio de investimentos chineses em títulos do Tesouro Americano. Por outro lado, os chineses exportam grande parte de sua produção industrial para os americanos, obtendo dinheiro para tais investimentos. Com a estagnação da economia americana, os EUA estão importando menos dos chineses. Assim, os chineses gradativamente estão tendo menos dinheiro para financiar os EUA. O agravante: para tentar dar um empurrão em sua economia, o FED vem reduzindo gradativamente a taxa básica de juros americana, fazendo com que a remuneração sobre novos Títulos do Tesouro sejam cada vez mais baixa, o que os torna pouco atraentes para qualquer investidor. Um exemplo: as taxas de rendimento das notas de dez anos do Tesouro americano estão entre 2 - 2,4%. Para que este ainda seja um investimento atraente, o mundo inteiro deveria estar partindo para um período de deflação. Porém, segundo o professor, do jeito com que o FED vem imprimindo dinheiro de forma tão furiosa, é de se perguntar se os americanos passarão realmente por um período de deflação. O déficit americano para 2010 pode atingir 10% do PIB dos EUA. Cenário inflacionário? Desvalorização do dólar? É um cenário bem plausível, vocês não concordam?

E o Brasil? Por mais descolado do movimento do mercado financeiro americano neste fim de ano, e por mais que o Nosso Guru alardeie que já somos uma nação independente e que “a crise mundial é uma marolinha para a nossa nação”, não devemos acreditar que economia brasileira não é integrada à economia global.

Um crescimento economico projetado para 2009 de 2% é uma catástrofe? Não, não é, principalmente se compararmos este crescimento com os países mais ricos e até mesmo com outros BRICs. De todos, o Brasil parece ser o menos exposto realmente. Entretanto, praticamente um quarto do capital investido na Bovespa é oriundo do estrangeiro. Faltando dinheiro lá, ninguem vai pôr dinheiro aqui. As duas locomotivas da Bovespa - Petrobrás e Vale - dependem do preço de suas commodities para adquirirem bons resultados. Ou seja, também dependem muito da China, que está recebendo cada vez menos dinheiro por suas exportações. Vale lembrar, que a China também saiu da vitrine. Os Jogos Olímpicos já terminaram, desviando um pouco os holofotes sobre o seu desenvolvimento. Se os chineses não tem mais a pressão para investir em sua infra-estrutura e se estão com menos dinheiro para tal, o que nos faz acreditar que os preços das commodities recuperar-se-ão? Fora o fato que é mais seguro crer em um professor de Oxford e Harvard do que em alguem que após 30 anos de vida pública, ingressando em um mar de oportunidades e dinheiro para aprimorar-se intelecto-culturalmente, obteve após este período apenas um diploma de presidente.

Desculpem o desabafo final,

João Luis Benatto Torres
ADVFN BRASIL
www.advfn.com.br