O estouro de uma nova bolha americana até o final de 2009? - Continuação
Caros amigos e comentaristas dos artigos do Canal de Alta,
Não tinha a intenção de continuar a escrever especificamente sobre este tema, entretanto, diante das críticas recebidas em alguns comentários sobre a primeira parte do O estouro de uma nova bolha americana até o final de 2009?, considerei pertinente tentar me aprofundar um pouco mais sobre alguns pontos que não foram muito aprofundados na primeira parte. Sendo assim, tentarei expor os fatos que basearam a minha opinião sobre o próximo capítulo desta crise econômica mundial.
O Brasil e suas principais empresas são basicamente exportadores de commodities. Seja a Petrobras com o petróleo e seus derivados, seja a Vale com o minério de ferro e afins, seja as empresas siderúrgicas com aço … Não que nossa economia seja apenas baseada na exportação destas commodities, ou que a nossa Bolsa de Valores tenha apenas empresas exportadoras de commodities compondo o seu índice. Cada vez mais temos empresas fortes baseadas no setor secundário e terciário desempenhando um papel de grande relevância para a economia do país e para a estabilidade do Índice Ibovespa. Entretanto, não podemos nos iludir que a grande força motriz da economia brasileira não seja as nossas commodities agrícolas, energéticas, minerais, pecuárias …Somos o que somos. Não estou inventando nada.
Não é novidade para ninguem que EUA e China são mercados consumidores vorazes das commodities brasileiras. Conforme abordado no último artigo, um desequilíbrio na relação simbiótica (chinamérica) entre estes dois países poderá gerar o estouro desta nova bolha financeira. Não é novidade também que, mesmo que esta nova tragédia não ocorra, a voracidade com que estes países vinham consumindo os nossos produtos não se repetirá este ano. Vamos a alguns fatos que podem convencê-los de que eu não me baseio apenas em achismo:
* As exportações do Brasil para a China cresceram cinco vezes nos últimos seis anos. Em 2008, o trio petróleo-minério de ferro-soja representou 77% do total de produtos exportados do Brasil para a China. A previsão para 2009 é que o volume financeiro total gerado por estas exportações seja 12% menor do que no último ano (redução de US$12.7 bilhões para US$11.2 bilhões). Apenas em relação a Petrobras, 24.1% do total exportado vai direto para a China, enquanto que 5.5% é comprado pela Europa e 5.2% pelos outros países da América do Sul. De maneira alguma que afirmar que as exportações da Petrobras dependem da China, mas que este país é um importantíssimo mercado consumidor acho que ninguem pode negar. É natural que um desaquecimento da economia deste país gere uma diminuição do apetitie do mesmo em relação ao nosso petróleo e demais commodities.
* A China está tentando costurar um free trade agreement com os países do Golfo Pérsico. Os negócios fechados entre a China e o bloco do petróleo cresceram 35% de 2002 até 2007, o que prova o grande interesse dos chineses em concretizar este acordo: acesso livre e fácil ao petróleo. Tudo em troca de bens a preços ultra-competitivos. Palms, laptops e CDs piratas da Xuxa pelo “Ouro Negro”. Não custa lembrar que vem ganhando força o bloco econômico formado pela China e os demais países asiáticos. Após este período de crise não vai ser difícil vislumbrar a China como novo motor do mundo. Não vou nem comentar sobre o que seria mais prático para a China entre manter este consumo anual de quase um quarto do total exportado pela Petrobras ou buscar Petróleo logo ali do lado praticamente à base de escambo.
* A Aluminium Corporation of China (Chinalco) irá investir US$ 19,5 bilhões na mineradora anglo-australiana Rio Tinto. Do montante total, US$ 12,3 bilhões serão destinados a joint-ventures na área de minério de ferro, cobre e alumínio. O acerto contempla a emissão de bônus conversíveis em duas tranches, com preço de conversão de US$ 45 e US$ 60, perfazendo um total de US$ 7,2 bilhões. Se convertidos, a participação da Chinalco na Rio Tinto irá a 18%. No ano passado, a Chinalco se juntou à norte-americana Alcoa para comprar 9% da Rio Tinto por US$ 14 bilhões. A Rio Tinto foi forçada a estudar esse conjunto de opções em meio à severa desaceleração no setor de mineração e metalurgia e depois do fracasso da tentativa de compra feita pela BHP Billiton em novembro, no valor de US$ 70 bilhões. Apesar de ser importante para o fortalecimento do setor, não é um dado positivo para a Vale (Brasil) e para a manutenção dos preços elevados do minério de ferro no mercado. É o caso do comprador adquirindo os meios de produção. O poder de barganha chinês aumenta consideravelmente. O investimento ajudará a China a consolidar sua influência sobre um fornecedor importante de minério de ferro para as siderúrgicas do país. O vocês acham que vai acontecer com a cotação da Vale?
* Agora um dado sobre este descolamento do Índice Ibovespa em relação ao Índice Dow Jones. Os estrangeiros voltaram a operar de maneira regular sobre o mercado financeiro brasileiro desde o início de 2009. A sincronia dos atores vem sendo tão perfeita que desde meados de Janeiro de 2009, o Ibovespa já subiu 12%. Somente nos cinco primeiros pregões de Fevereiro, os estrangeiros já investiram R$1,2 bilhão em nossa bolsa. Não sei até quando vai durar, mas isso não está meio parecido com o que ocorreu no ano passado? O Mundo cai, mas o Brasil não se abala … Avante companheiros!
* Dando certo ou não estes pacotes de SOS desenvolvidos pelo governo americano, muito dinheiro vai ser gasto. Como comentamos no último artigo, os grandes financiadores desta gastança sem fim são os chineses, comprando os Títulos do Tesouro Americano (Treasures). Mesmo com a crise, os chineses ainda tem muito dinheiro para gastar, vide a disparada de empréstimos bancários registrada lá do outro lado do mundo. Apesar de ser um bom sinal para a crise, pois significa que alguem ainda está gastando dinheiro por aí, os chineses já mostram sinais de insatisfação com a desvalorização dos Treasures Americanos. Os chineses possuem cerca de US$700 bilhões enterrados nos títulos do Tesouro Americano. Com a emissão de mais títulos para financiar todos estes pacotes, os mesmos tendem a desvalorizar mais ainda. O Tesouro Americano pretende, nos próximos dois anos, emitir entre US$2.7 a US$4.2 trilhões em títulos. A desvalorização do USD em relação CNY também preocupa, já que com estas taxas baixas, vai ser difícil segurar a desvalorização da moeda americana em relação à chinesa. Assim, o pouco que estes títulos rendem aos chineses atualmente, renderá muito menos em termos de poder de compra. O ciclo está ou não está se fechando?
Esta nova bolha pode até não estourar, mas que éela já está inchando não há como negar. E mesmo assim, alguma vez o mundo inteiro sofreu e o Brasil ficou incólume? Por que isso iria acontecer logo agora?
Um grande abraço e até a próxima!
João Luis Benatto Torres
ADVFN BRASIL
www.advfn.com.br

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