A geração de caixa medida pelo Ebtida das companhias abertas neste primeiro semestre mostra que o estrago da crise para as empresas brasileiras não foi pequeno. Para a maioria das empresas, o indicador registrou queda na comparação com o mesmo período do ano passado.
Segundo pesquisa realizada pela Corretora Souza Barros, com exclusividade para o Monitor Mercantil, junto a 44 empresas que fazem parte das 56 classificadas no Ibovespa, 27 apresentaram redução na geração de caixa e as demais mostraram crescimento. O Ebtida total destas 44 empresas somou, nos seis primeiros meses de 2009, R$ 54,656 bilhões, contra R$ 88,372 bilhões no mesmo período de 2008.
O levantamento não inclui o setor financeiro, pois este não trabalha com o indicador Ebtida. Os destaques entre as quedas do Ebtida ficaram com as empresas exportadoras de commodities, como dos segmentos de siderurgia, papel e celulose e mineração, mas o de energia elétrica, que também sofreu com os impactos da crise, não ficou atrás.
Do lado positivo, o destaque fica com a Embraer que, após a redução do custo fixo, conseguiu registrar forte incremento do Ebtida e da margem financeira. Em termos de setores estão o de construção civil e logística. Neste sentido, constam da lista positiva a América Latina Logística (ALL), CCR Rodovias, Gafisa e Rossi Residencial. Outras empresas com bom desempenho são a Sabespa, AmBev, Redecard e Net.
Siderurgia
De acordo com a Fator Corretora é preciso ter cautela com o setor de siderurgia. No caso da Gerdau, companhia bastante afetada pela crise externa, o Ebtida mostrou forte queda, ao passar de R$ 4,59 bilhões para R$ 234,9 milhões. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) também mostrou elevada perda na geração de caixa semestral, que caiu de R$ 2,83 bilhões para R$ 1,28 bilhão. Com relação à Usiminas, a perda ficou ainda acima da CSN, mas abaixo da Gerdau, de R$ 2,623 bilhões para R$ 495,2 milhões.
“Revisamos nossas projeções para CSN, Gerdau, Metalúrgica Gerdau e Usiminas em função de: alteração das premissas macroeconômicas; novas perspectivas para o volume de vendas; e menor taxa livre de risco. Seguimos com recomendação de manutenção para todas as ações do setor em 2009”, explicam os analistas da Fator em relatório aos clientes. A recomendação para as ações da CSN, Gerdau e Usiminas é de manutenção e os preços-alvo para junho de 2010 são de R$ 55,20, R$ 23,90 e R$ 44,60, respectivamente.
Os analistas da Fator lembram que o mercado automobilístico doméstico se mostra resiliente aos impactos da crise. As medidas governamentais, de redução do IPI e incentivos à concessão de crédito, surtiram efeito e mantiveram o mercado interno aquecido.
Nos últimos dois meses, o volume de vendas foi superior à produção, fato que denota preocupação do setor com a formação de estoques. No entanto, o mercado automobilístico pode sofrer com a canibalização das vendas futuras e menor escoamento das vendas ao mercado externo. A recomposição do IPI a partir de setembro deste ano deve impactar negativamente o volume de vendas.
Papel & celulose
Para as fabricantes de papel e celulose, o primeiro semestre também não foi dos melhores. O Ebtida da Aracruz recuou de R$ 685,4 milhões para R$ 444,1 milhões. Para a Klabin, a perda foi mais tímida, com a geração de caixa reduzindo de R$ 384 milhões para R$ 329,5 milhões. Os analistas do Bank of America Merrill Lynch recomendam venda para as ações da Klabin.
A VCP demonstrou movimento contrário e o Ebtida da companhia cresceu de R$ 522 milhões para R$ 730,3 milhões. Após os resultados, os analistas do Bank of America Merrill Lynch atualizaram a recomendação de neutra para compra das ações da VCP, classificada como a top pick no setor. A recomendação para a VCP está relacionada ao aumento dos preços da celulose no mercado externo.
Segundo os especialistas da Merrill Lynch, a VCP é a empresa mais alavancada do Brasil com o ciclo de celulose e pode registrar desempenho acima de seus pares no curto prazo. A cada aumento US$ 50 por tonelada no preço da celulose, a empresa registra um aumento de 20% o Ebitda do próximo ano.
Energia Elétrica
As empresas do setor de energia elétrica também exibiram recuo do Ebtida neste primeiro semestre, com exceção da Transmissão Paulista, cuja geração de caixa subiu de R$ 636,1 milhões para R$ 707,4 milhões. O Ebtida da Celesc recuou para menos da metade do registrado no primeiro semestre de 2008, de R$ 372,5 milhões para R$ 184,7 milhões. O Ebtida da Eletropaulo cedeu de R$ 791,5 milhões para R$ 697,4 milhões. No caso da Cemig, a retração foi mais tímida, de R$ 2,07 bilhões para R$ 1,81 bilhão. Para a CPFL, o recuo também foi menor: o indicador cedeu de R$ 1,493 bilhão para R$ 1,352 bilhão.
A estimativa dos analistas é de que a recuperação de demanda da classe industrial seja gradual e não deverá retornar aos mesmos patamares de crescimento no curto prazo. Outro aspecto que poderá influenciar o setor elétrico caso a atividade econômica não retorne aos antigos patamares de crescimento é a devolução de energia de consumidores no mercado livre, uma vez que existe um lock-up de 180 dias nos contratos de take-or-pay.
O crescimento da inadimplência também poderá ser maior no segundo semestre, uma vez que muitas empresas provisionam perdas com contas em atraso a partir de 90 dias. Já o efeito da redução da taxa de juros nas empresas do setor elétrico deverá ser limitado, uma vez que são pouco alavancadas.
Fonte: Monitor Mercantil